continuação do depoimento de Rodolfo Aguiar a Inácio França e Samarone Lima
A verdade de um ex-presidente
"Eu sou de origem bancária. Fui gerente regional do Banco Nacional. De 1971 a 1973, comandei o Banco Nacional nos estados da Bahia e Sergipe. De 1974 a 1978, quando desisti de tudo porque em 1979 iria assumir a presidência do clube, comandava de Alagoas ao Acre. Até 1978, eu era vice-presidente, mas continuei no banco.
Nunca valorizei muito esse negócio de vaidade como presidente. Só tenho uma matéria de jornal guardada, que minha mulher fez questão de preservar: foi quando deixei a presidência do Santa Cruz e o finado Adonias Moura, do Diário de Pernambuco, fez uma matéria. E a chamada da página era
A verdade de um grande presidente. Foi uma forma que Adonias encontrou de me prestar uma homenagem.
Comigo na presidência fomos campeões em 1979, ganhando os três turnos. Naquele ano, tínhamos que perder sete partidas para o Náutico para perder o título. No jogo da decisão, começamos perdendo de 1 a 0, mas depois fizemos 1 a 1 com Betinho, fizemos 2 a 1 com Joãozinho e 3 a 1 com Carlos Alberto Barbosa. Nessa partida ganhamos a segunda fase do terceiro turno e como já tínhamos a primeira fase, ganhamos o turno e o campeonato.
Foi o único título da minha gestão, mas quando eu estava no departamento de futebol, não. Nos quatro anos que antecederam à minha presidência, estive envolvido diretamente no departamento de futebol, com poder de decisão. Tomando decisões! Decidindo mesmo! E vou dar um exemplo: em 1976, tínhamos contratado o goleiro Pascoalin, do São Paulo, mas que não esteve bem. Aí, na época do aniversário do Santa Cruz, no início de fevereiro, o Bahia veio jogar aqui uma partida amistosa e perdeu por 1 a 0, mas abandonou o campo porque não se conformaram com um pênalti marcado contra eles. Eles ficaram hospedados no Hotel São Domingos, aí fui lá no hotel e comprei Joel Mendes, que era o goleiro do Bahia. O técnico deles era até o Carlos Froner.
Assumi a presidência na parte coberta do estádio, com um bom público nas cadeiras prestigiando a posse. Já no mês de fevereiro, começamos uma excursão pelo exterior, foram 12 jogos sob o patrocínio de Elias Zarur, um grande empresário da época, muito ligado aos árabes. Foram 10 partidas no Oriente Médio, com 10 vitórias, inclusive contra a seleção do Kuwait dirigida por Zagallo. Um jogo na Romênia, contra a seleção romena: vencemos por 4 a 2. E um jogo contra o Paris-Saint-Germain, quando começamos ganhando por 2 a 0, dois gols de Vôlnei, mas cedemos o empate no segundo tempo.
Recebemos tudo no Brasil, antes da viagem, inclusive as diárias dos hotéis e as cotas das partidas. O time saiu daqui com tudo pago, algo muito difícil no futebol. Isso viabilizou o time pelo resto do ano. O campeonato pernambucano começou logo após a nossa volta.
Eu assistia aos jogos quase todos nas sociais, junto com a torcida. E fazia questão de pagar meu ingresso, assim ninguém tinha coragem de me pedir ingressos de graça".
O colegiado dá as cartas
"Mas eu não vinha me preparando para ser presidente. Fui presidente porque isso fazia parte de um projeto de poder dentro do Santa Cruz, o projeto de um grupo e não um objetivo pessoal. Eu acabaria presidente de um jeito ou de outro, dentro do rodízio do colegiado, que era composto por mim, José Nivaldo de Castro, Mariano Matos, Humberto Ribeiro Alves, João Caixeiro, Vanildo Ayres e Aristófanes. Esse colegiado viabilizou o clube ao longo de 10 anos, ganhando sete títulos estaduais em 10 anos e levando o time ao quarto lugar do campeonato brasileiro uma vez, em 1975, e entre oito primeiros lugares em 1977.
Combinávamos três elementos difíceis de serem conjugadas no futebol: ganhávamos títulos, garantíamos o equilíbrio financeiro e aumentávamos o patrimônio do clube.
Nesses 10 anos, saímos da primeira versão do estádio - que foi financiada pelo governo do estado para que a cidade pudesse sediar jogos da Minicopa de 1972 – para a atual dimensão do Arruda. É evidente que nós soubemos tirar proveito do momento político que era favorável ao Santa Cruz.
Em 1975 nós fizemos um grande time! E em 1977 nós montamos aquele que eu considero, tecnicamente, o melhor time da história do Santa Cruz, que foi: Joel Mendes, Carlos Alberto Barbosa, Paranhos, Alfredo Santos e Pedrinho; Givanildo, Betinho e Wilson Carrasco; Fumanchu, Nunes e Joãozinho. E ainda tinha Vôlnei no banco de reservas. Esse time, para onde a gente saía, tinha facilidade de fazer muitos gols. Aquele time de 1957 que lhe falei antes ganhou um título supervalorizado, mas, tecnicamente, esse time de 1977 era o melhor".
Na foto, Mariano Matos dá posse a Rodolfo Aguiar, em 1979 (foto retirada do álbum de recordações guardado pela esposa do ex-presidente)
3 Comments:
acho importante uma reportagem mostrando os problemas do santa cruz de uma maneira geral, e com a oportunidade de nós tricolores podermos opinar aqui no blog como resolve-los.
abraços
"ganhávamos títulos, garantíamos o equilíbrio financeiro e aumentávamos o patrimônio do clube".
Bons tempos aqueles...
E agora essa do Reinaldo se bandear para o Grêmio.
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