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quarta-feira, 14 de dezembro de 2005

Conto de Natal Coral (final)

Segue a segunda parte do Conto de Natal Coral. *** por Paulo Araújo Viajaram fazendo a maior zoeira dentro do avião. As aeromoças nada entendiam, apenas sorriam e acompanhavam um tanto quanto incomodadas aquele grupo todo vestido de preto, branco e vermelho, que tocou forró durante toda a viagem, ou melhor, durante parte da viagem, pois o cansaço da semana ganhou da animação. Na chegada, o mais paparicado foi Samarone, o qual, para evitar um desencantamento do Padre Bellucci, alugou uma batina de franciscano em uma loja de roupas para o carnaval e leu tudo o que pôde sobre São Bento, São Francisco, Santo Ignácio de Loyola e Bento XVI. Não que o grupo estivesse sendo mal tratado, pelo contrário, é que Samarone foi logo convidado a jantar com outros padres – convite prudentemente rejeitado sob a falsa alegação de indisposição – e foi ele quem sofreu o maior assédio dos “colegas” padres, interessadíssimos em conhecer o trabalho comunitário com música desenvolvido pelo colega brasileiro. Todos instalados em um hotel de Roma, reuniram-se no quarto do germânico Gerrá e só então a ficha caiu: o que iriam cantar? Mesmo existindo católicos naquele grupo, a verdade de forma irrefutável apontava para o fato de que as letras da Sanfona Coral eram impróprias para uma apresentação dentro do Vaticano. Tudo bem, a confusão do Santa Cruz com a Santa Cruz, símbolo de fé católica romana, não precisava ser dissipada. No entanto, como cantar as versões, por exemplo, do hino daquele time gaúcho? O repertório seria modificado de última hora? “Não”, gritaram todos e decidiram alterar as letras apenas para que não ficassem pornofônicas. Vararam a noite e alteraram todas elas. A mais difícil foi a adaptação de “Pra todo mundo”: “Pra todo mundo a minha cara é de alegria Porque ninguém tem mais pontos que o tricolor O meu lamento é que ninguém pode dar jeito Mulher de rubro-negro só fode com tricolor” Com os retoques finais dados por seu Vital, que estava parecendo com Naná de tanto agasalho que carregava, o último verso ficou: “Qualquer um que sofre só pode ter dor” Não era o primor da musicografia internacional, era o possível para aquele momento. No dia da apresentação, dispensaram pizzas e espaguetes e almoçaram a famosa feijoada de D. Madalena para dar sorte, regada à muita cerveja e cachaça, de maneira providencial trazida por Naná e seu Vital. Começa o show. Nervosismo, todos, todos mesmo, no palco, vestidos com uma nova camisa da Sanfona Coral, especialmente desenhada para o momento, com motivos natalinos. Aplausos formais e Chiló puxa da sanfona um baião instrumental que acalma a trupe. Gerrá, que terminou por conhecer o Papa pessoalmente, quando foi desfeito o equívoco de sua nacionalidade, meteu zabumba para cima e Alessandra Malvina triangulou como nunca na sua vida. Terminado o show, aplausos meramente formais e o apresentador vem até o Frei Samarone e indaga com qual música ele gostaria de encerrar a apresentação. Sama, que tinha ingerido boas talagadas da branquinha antes de entrar no palco e que já se sentia bastante à vontade na sua posição de padre-músico, sem pensar, grita que iriam cantar o hino de Pernambuco, estado de origem da Sanfona Coral. O grupo musical (a Sanfona Coral e a equipe de apoio) sorri e, só então, percebe que a letra não poderia ser dita, tampouco alguém sabia a verdadeira letra do hino pernambucano. Justamente o hino não tinha sido “convertido”. Malvina não se deixa desesperar (“pior foi levar aquele gol da portuguesa no último jogo”, pensou ela) e conclama os companheiros a fazerem a alteração da letra no momento em que estivessem cantando. A versão original: “Salve o Santa e foda-se a Barbie Que se lasque a coisa também Esse ano eu vou pra série A Pernambuco o carai/o carai". Sem titubear, a Sanfona começou a interpretar uma nova versão, no improviso coletivo (se isto é possível), pois mais uma hesitação poderia representar toda a verdade ser revelada (duas funcionárias do hotel tinham achado bastante estranho aquele franciscano cheio de cerveja assediando-as com poesias em espanhol): "Salve a Santa e prenda-se a Barbie Que se percam coisas também Esse ano eu vou apenas rezar Pernambuco..." As últimas palavras do último verso da última estrofe da última música (o carai, o carai) e... branco total. Ninguém conseguia fechar a rima. Chiló deu um nó no acordeão, Gerrá se contorceu zabumbeando, Malvina quase amassa o triângulo, o ganzá de apoio chega tremeu e nada. O pânico já ia tomar conta da Sanfona quando Naná, pra lá de bêbado, vai para a frente do grupo e grita, sorrindo e balançando a barriga: “Pernambuco, Adonai, Adonai” Êxtase total. A Sanfona Coral é ovacionada, aplaudida de pé, Sua Santidade o Papa enxuga as lágrimas, Padre Bellucci aplaude com intensa alegria e poucos foram os que não compartilharam da mesma emoção. Ainda gozando dos júbilos da excelente apresentação, Samarone não se contém e pergunta a Naná de onde é que ele tirou a rima perfeita para o verso, pois, além da métrica correta, “Adonai” significa Senhor, Mestre, em hebraico, usado no Velho Testamento. O gordo, mal entendendo a pergunta, responde que apenas se lembrou do nome do mecânico da Kombi, a quem está devendo uma grana e que, com a homenagem, pretendia ver reduzida a inadimplência. Todos riram muito e foram festejar fazendo uma carreata tricolor nas históricas ruas de Roma. D. Madalena chegou a dizer que “o tal do Coliseu era um nada perante o Arrudão” e teriam feito muito mais bagunça se não houvessem aceitado outro convite. É que a Sanfona Coral vai fazer o show de abertura da Copa da Alemanha 2006, por conta do sucesso no Vaticano e, claro, pela interferência direta de Bento XVI. Na foto: Frei Samarone, flagrado em oração com outros integrantes de sua ordem religiosa

16 Comments:

Anonymous Anônimo said...

amei!

muito bom mesmo!

está garantido o seu lugar junto a galera nas viagens sanfônicas.

redação como essa tem que receber um prêmio na academia brasileira de letras, uma delícia de texto.

retratou perfeitamente nossa viagem, parabéns!

malmal

12/14/2005 09:11:00 PM  
Anonymous Anônimo said...

Tem que botar no livro com os melhores textos do blog ! Dá até um bom roteiro pra um curta metragem, inscrito para disputar o festival de cinema de Roma (deve ter um fstival de cinema em Roma). sugestão de título para a película: DE GLORIOUS ACORDEOUM TRICOLORIS IN VINO VERITA EST

12/14/2005 09:37:00 PM  
Anonymous Anônimo said...

Pensando bem, um curta não dá pra tanta aventura. Arrumem patrocínio pra fazer um épico, tipo Cecil B. DeMille

12/14/2005 09:40:00 PM  
Anonymous Anônimo said...

Acabamos de "PERDER" um excelente parceiro. O TricolorPE abre inscrições para novo colaborador.hehehe
Paulo, o cara quando nasce com o (PIMMMM) virado pra lua... além de um dos melhores profissionais da advocacia do estado, um excelente escritor. Parabéns!!! Abraços, Alex dos Anjos

12/14/2005 10:15:00 PM  
Anonymous Anônimo said...

esse texto da viagem tá realmente uma viagem.
por falar em viagem, a sanfona coral já tá planejando as excursões(é com um s ou dois?, te fode pasquale)e pic-nic's(agora q lascou mesmo!!!) para os jogos do interior.

12/14/2005 10:48:00 PM  
Anonymous Anônimo said...

A globo pode contratar p/ ele escrever a próxima novela das oito. Muito bom. Tô embolando de ri. A melhor foi Adonai Adonai

12/14/2005 11:34:00 PM  
Anonymous Anônimo said...

Hoje tem a Sanfona Coral na Rádio Jornal, às 10 da noite, no Programa de Ednaldo Santos. Parece que o Papa vai ligar pedindo umamúsica.

12/15/2005 09:01:00 AM  
Anonymous Anônimo said...

que gréia do caraaaaiii!!!!

saudações tricolores!

12/15/2005 09:25:00 AM  
Anonymous Anônimo said...

Amigos Tricolores,

Eu duvido que haja qualquer coisa parecida noutro site ou blog dos nossos adversários e daqui pra frente, podem esperar, vai rolar muita imitação. Que texto caceteiro da bobônica! Bom demais! Parabéns Paulo. Que o sucesso não lhe suba a cabeça.
SAUDAÇÕES TRICOLORES!!!!!!!!!!!!!!

12/15/2005 10:00:00 AM  
Anonymous Anônimo said...

Muito bom! Maravilhos, como todo o blog! Toda a equipe está de parabéns. Torcer pro Santinha, que já era bom, ficou ainda melhor! Valeu rapaziada!

12/15/2005 11:34:00 AM  
Anonymous Anônimo said...

Paulo, parabéns pelos textos. Hilários e muito bem escritos. Bem à altura do momento tricolor.
Grande abraço.

12/15/2005 01:24:00 PM  
Anonymous Anônimo said...

Consegui imaginar a cena de Samarone com a batina,e melhor seria ver a fisionomia de cada no momento do "Adonai,adonai"...simplesmente perfeito!

Saudações tricolores

12/15/2005 02:11:00 PM  
Anonymous Anônimo said...

Vou falar pra Dona Madalena que ela é personagem-chave de uma obra prima.
Ela não vai entender nada e perguntar o que eu quero pra janta.

J.

12/15/2005 04:21:00 PM  
Anonymous Anônimo said...

Ah, eu já sabia!
Ah, eu já sabia!
Pense num escritor!!!
Parabéns!!!

12/16/2005 07:55:00 AM  
Anonymous Anônimo said...

Samarone/Inácio,

Depois de acompanhar todas estas cônicas, relatos/depoimentos, desabafos, fotos, músicas e comentários os mais inflamados e divertidos (incluindo aí toda espécie de esculhambação), venho sugerir a criação imediata da ACADEMIA CORAL DE LETRAS E DE TODAS AS ARTES, com sede intinerante e reuniões semanais, nas quais serão debatidos os mais diversos assuntos, da física quântica à morte da bezerra e tudo isto, é claro, registrado em ata.
Na esperança de ter sido útil (ou não!), deixo MINHAS SAUDAÇÕES TRICOLORES!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

12/16/2005 10:50:00 AM  
Anonymous Anônimo said...

Ei, merece um gibi. kkkkkkk

12/18/2005 05:12:00 PM  

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