Segue a segunda parte do Conto de Natal Coral.
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por Paulo Araújo
Viajaram fazendo a maior zoeira dentro do avião. As aeromoças nada entendiam, apenas sorriam e acompanhavam um tanto quanto incomodadas aquele grupo todo vestido de preto, branco e vermelho, que tocou forró durante toda a viagem, ou melhor, durante parte da viagem, pois o cansaço da semana ganhou da animação.
Na chegada, o mais paparicado foi Samarone, o qual, para evitar um desencantamento do Padre Bellucci, alugou uma batina de franciscano em uma loja de roupas para o carnaval e leu tudo o que pôde sobre São Bento, São Francisco, Santo Ignácio de Loyola e Bento XVI. Não que o grupo estivesse sendo mal tratado, pelo contrário, é que Samarone foi logo convidado a jantar com outros padres – convite prudentemente rejeitado sob a falsa alegação de indisposição – e foi ele quem sofreu o maior assédio dos “colegas” padres, interessadíssimos em conhecer o trabalho comunitário com música desenvolvido pelo colega brasileiro.
Todos instalados em um hotel de Roma, reuniram-se no quarto do germânico Gerrá e só então a ficha caiu: o que iriam cantar? Mesmo existindo católicos naquele grupo, a verdade de forma irrefutável apontava para o fato de que as letras da Sanfona Coral eram impróprias para uma apresentação dentro do Vaticano.
Tudo bem, a confusão do Santa Cruz com a Santa Cruz, símbolo de fé católica romana, não precisava ser dissipada. No entanto, como cantar as versões, por exemplo, do hino daquele time gaúcho? O repertório seria modificado de última hora? “Não”, gritaram todos e decidiram alterar as letras apenas para que não ficassem pornofônicas. Vararam a noite e alteraram todas elas. A mais difícil foi a adaptação de “Pra todo mundo”:
“Pra todo mundo a minha cara é de alegria
Porque ninguém tem mais pontos que o tricolor
O meu lamento é que ninguém pode dar jeito
Mulher de rubro-negro só fode com tricolor”
Com os retoques finais dados por seu Vital, que estava parecendo com Naná de tanto agasalho que carregava, o último verso ficou:
“Qualquer um que sofre só pode ter dor”
Não era o primor da musicografia internacional, era o possível para aquele momento.
No dia da apresentação, dispensaram pizzas e espaguetes e almoçaram a famosa feijoada de D. Madalena para dar sorte, regada à muita cerveja e cachaça, de maneira providencial trazida por Naná e seu Vital.
Começa o show. Nervosismo, todos, todos mesmo, no palco, vestidos com uma nova camisa da Sanfona Coral, especialmente desenhada para o momento, com motivos natalinos. Aplausos formais e Chiló puxa da sanfona um baião instrumental que acalma a trupe. Gerrá, que terminou por conhecer o Papa pessoalmente, quando foi desfeito o equívoco de sua nacionalidade, meteu zabumba para cima e Alessandra Malvina triangulou como nunca na sua vida.
Terminado o show, aplausos meramente formais e o apresentador vem até o Frei Samarone e indaga com qual música ele gostaria de encerrar a apresentação. Sama, que tinha ingerido boas talagadas da branquinha antes de entrar no palco e que já se sentia bastante à vontade na sua posição de padre-músico, sem pensar, grita que iriam cantar o hino de Pernambuco, estado de origem da Sanfona Coral.
O grupo musical (a Sanfona Coral e a equipe de apoio) sorri e, só então, percebe que a letra não poderia ser dita, tampouco alguém sabia a verdadeira letra do hino pernambucano. Justamente o hino não tinha sido “convertido”. Malvina não se deixa desesperar (“pior foi levar aquele gol da portuguesa no último jogo”, pensou ela) e conclama os companheiros a fazerem a alteração da letra no momento em que estivessem cantando.
A versão original:
“Salve o Santa
e foda-se a Barbie
Que se lasque a coisa também
Esse ano eu vou pra série A
Pernambuco o carai/o carai".
Sem titubear, a Sanfona começou a interpretar uma nova versão, no improviso coletivo (se isto é possível), pois mais uma hesitação poderia representar toda a verdade ser revelada (duas funcionárias do hotel tinham achado bastante estranho aquele franciscano cheio de cerveja assediando-as com poesias em espanhol):
"Salve a Santa
e prenda-se a Barbie
Que se percam coisas também
Esse ano eu vou apenas rezar
Pernambuco..."
As últimas palavras do último verso da última estrofe da última música (o carai, o carai) e... branco total. Ninguém conseguia fechar a rima. Chiló deu um nó no acordeão, Gerrá se contorceu zabumbeando, Malvina quase amassa o triângulo, o ganzá de apoio chega tremeu e nada.
O pânico já ia tomar conta da Sanfona quando Naná, pra lá de bêbado, vai para a frente do grupo e grita, sorrindo e balançando a barriga:
“Pernambuco, Adonai, Adonai”
Êxtase total. A Sanfona Coral é ovacionada, aplaudida de pé, Sua Santidade o Papa enxuga as lágrimas, Padre Bellucci aplaude com intensa alegria e poucos foram os que não compartilharam da mesma emoção.
Ainda gozando dos júbilos da excelente apresentação, Samarone não se contém e pergunta a Naná de onde é que ele tirou a rima perfeita para o verso, pois, além da métrica correta, “Adonai” significa Senhor, Mestre, em hebraico, usado no Velho Testamento.
O gordo, mal entendendo a pergunta, responde que apenas se lembrou do nome do mecânico da Kombi, a quem está devendo uma grana e que, com a homenagem, pretendia ver reduzida a inadimplência.
Todos riram muito e foram festejar fazendo uma carreata tricolor nas históricas ruas de Roma. D. Madalena chegou a dizer que “o tal do Coliseu era um nada perante o Arrudão” e teriam feito muito mais bagunça se não houvessem aceitado outro convite.
É que a Sanfona Coral vai fazer o show de abertura da Copa da Alemanha 2006, por conta do sucesso no Vaticano e, claro, pela interferência direta de Bento XVI.
Na foto: Frei Samarone, flagrado em oração com outros integrantes de sua ordem religiosa
16 Comments:
amei!
muito bom mesmo!
está garantido o seu lugar junto a galera nas viagens sanfônicas.
redação como essa tem que receber um prêmio na academia brasileira de letras, uma delícia de texto.
retratou perfeitamente nossa viagem, parabéns!
malmal
Tem que botar no livro com os melhores textos do blog ! Dá até um bom roteiro pra um curta metragem, inscrito para disputar o festival de cinema de Roma (deve ter um fstival de cinema em Roma). sugestão de título para a película: DE GLORIOUS ACORDEOUM TRICOLORIS IN VINO VERITA EST
Pensando bem, um curta não dá pra tanta aventura. Arrumem patrocínio pra fazer um épico, tipo Cecil B. DeMille
Acabamos de "PERDER" um excelente parceiro. O TricolorPE abre inscrições para novo colaborador.hehehe
Paulo, o cara quando nasce com o (PIMMMM) virado pra lua... além de um dos melhores profissionais da advocacia do estado, um excelente escritor. Parabéns!!! Abraços, Alex dos Anjos
esse texto da viagem tá realmente uma viagem.
por falar em viagem, a sanfona coral já tá planejando as excursões(é com um s ou dois?, te fode pasquale)e pic-nic's(agora q lascou mesmo!!!) para os jogos do interior.
A globo pode contratar p/ ele escrever a próxima novela das oito. Muito bom. Tô embolando de ri. A melhor foi Adonai Adonai
Hoje tem a Sanfona Coral na Rádio Jornal, às 10 da noite, no Programa de Ednaldo Santos. Parece que o Papa vai ligar pedindo umamúsica.
que gréia do caraaaaiii!!!!
saudações tricolores!
Amigos Tricolores,
Eu duvido que haja qualquer coisa parecida noutro site ou blog dos nossos adversários e daqui pra frente, podem esperar, vai rolar muita imitação. Que texto caceteiro da bobônica! Bom demais! Parabéns Paulo. Que o sucesso não lhe suba a cabeça.
SAUDAÇÕES TRICOLORES!!!!!!!!!!!!!!
Muito bom! Maravilhos, como todo o blog! Toda a equipe está de parabéns. Torcer pro Santinha, que já era bom, ficou ainda melhor! Valeu rapaziada!
Paulo, parabéns pelos textos. Hilários e muito bem escritos. Bem à altura do momento tricolor.
Grande abraço.
Consegui imaginar a cena de Samarone com a batina,e melhor seria ver a fisionomia de cada no momento do "Adonai,adonai"...simplesmente perfeito!
Saudações tricolores
Vou falar pra Dona Madalena que ela é personagem-chave de uma obra prima.
Ela não vai entender nada e perguntar o que eu quero pra janta.
J.
Ah, eu já sabia!
Ah, eu já sabia!
Pense num escritor!!!
Parabéns!!!
Samarone/Inácio,
Depois de acompanhar todas estas cônicas, relatos/depoimentos, desabafos, fotos, músicas e comentários os mais inflamados e divertidos (incluindo aí toda espécie de esculhambação), venho sugerir a criação imediata da ACADEMIA CORAL DE LETRAS E DE TODAS AS ARTES, com sede intinerante e reuniões semanais, nas quais serão debatidos os mais diversos assuntos, da física quântica à morte da bezerra e tudo isto, é claro, registrado em ata.
Na esperança de ter sido útil (ou não!), deixo MINHAS SAUDAÇÕES TRICOLORES!!!!!!!!!!!!!!!!!!!
Ei, merece um gibi. kkkkkkk
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