O dia em que a Sanfona Coral tocou no Vaticano (Conto natalino de sanfona)
O Blog do Santinha se aventura no mundo da literatura coral, publicando um Conto de Natal.
A segunda parte da ficção referente à viagem da Sanfona Coral para o Vaticano, entra no ar hoje à noite
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por Paulo Araújo
Corria o vigésimo sétimo dia do décimo primeiro mês do duomilésimo quinto ano da era do Senhor, um domingo, quando Samarone – que tinha bebido todas e mais cinco saideiras no dia anterior, por conta da classificação do Santa Cruz Futebol Clube para a 1ª Divisão, um retorno merecido e esperado pela maior torcida do estado – foi acordado, sabe-se lá como, por uma incessante saraivada de toques de seu telefone.
“Não é possível, bando de @$¥8€, filho da @$¥8€ ”, praguejou o tricolor recém-ressuscitado, levantando a cabeça para ver se entendia ou compreendia o que estava ocorrendo.
— Alô!!! (voz extremamente branda, arrastada e acompanhada de um arroto quase acompanhado de duas saideiras que ainda não tinham dormido no estômago de Samarone)
— Frei Samarone? Aqui é o Padre Giuseppe Bellucci, do Vaticano, falo em nome do Secretário de Estado da Cúria Romana, Cardeal Ângelo Sodano, e, claro, por autorização do Santo Padre Benedictvs XVI, o Bento XVI aí nesse maravilhoso Brasil.
— Oh, Gio, que estória é essa de Benedito e Mara no São Bento? É pro carnaval, vai rolar música, me explica que eu ainda estou embriagado!
— (Pe. Bellucci, sem entender muito e já se comunicando em espanhol-português-italiano) É... bom, vou direto ao assunto: é para a vaga deixada com a saída de Daniela Mercury. Estamos com pressa e achamos por bem chamar um artista ou banda brasileira, para substituí-la, alguém com o perfil de um coral que está muito famoso por aí.
— (uuuuuuurgh, onomatopéia para vômito)
— Frei Samarone, não entendi!
— (limpando a boca com o lençol e enxugando o suor da testa) Gio, repete a conversa aí que a ligação tá ruim
— Desculpe-me, é que essa confusão toda com a cantora baiana, um mal-entendido na verdade, deixou-me bastante ansioso. Fui pesquisar na internet e descobri esse conjunto regional de vocês, a Sanfona Coral, e desejaria que ele viesse tocar no especial de Natal do Vaticano. Sua Santidade em pessoa já disse que assistirá ao evento pessoalmente.
— Meu irmão, tô ligado nessa conversa não; ademais, eu não sou músico da Sanfona, só vou na gréia. Se quiser o telefone de Chiló, de Malvina ou de Gerrá...
— Não tenho mais tempo de procurar Gherard no Chile ou nas Malvinas (aqui na Europa, chamamos de Falklands...). O irmão na fé não poderia confirmar se a agenda da Sanfona Coral estaria livre para o dia 03 de dezembro, dia da gravação do especial?
— Bom, os cara da Sanfona tão cheios de eventos para fazer, mas se a gente falar com Naná ele dá um jeito de deixar o pessoal no São Bento.
— Quem é Naná? O percussionista Naná Vasconcelos vem também?
— Não, o Naná da Kombi Coral! Ele quebra muito galho para a gente e, logicamente, também para a Sanfona Coral
— Está certo, frei. São quantos no total? Pergunto incluindo integrantes do coral, produção e equipe de apoio
— Essa conversa de arrumação, somente com a ajuda de Inácio, padre.
— Ajude-me, irmão. Afinal de contas, não foi o próprio Santo Ignácio de Loyola que disse que “trabalha como se tudo dependesse de ti e confia como se tudo dependesse de Deus”?
— Bom, acho que tem uns dez abnegados pelo Santa Cruz que não fariam questão de ir, desde que o “leitinho” esteja garantido
— Dê-me o seu endereço, que as passagens aéreas chegarão em breve.
Encerrada a ligação, Samarone vomita novamente, jura que nunca mais irá beber (@$¥8€!!!) e volta a dormir.
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— É o que eu lhe garanto, Santo Padre. Um conjunto popular, de exaltação dos bons costumes e com músicas infantis.
— E quem lhe garante, caríssimo Bellucci?
— Pesquisando na internet, encontrei um site de louvação à Santa Cruz. Tem um frei – ele só pode ser um frei, com aquele cabelo e aquela barba horrorosos – que vive escrevendo mensagens para os pobres, prega o amor entre os povos e, imagine só, é seguidor de Santo Ignácio de Loyola, gerando-me somente a dúvida se é franciscano (pelas vestes e aparência) ou jesuíta (pelo amor a Santo Ignácio). Mora, Sua Santidade, o dedicado frei Samarone, em um poço, tamanha renúncia às coisas materiais e mundanas. Imagine só, a única exigência foi leite para saciar a fome.
— Qual é o estilo musical?
— Popular e amplo, Santo Padre, entretanto, deu para perceber que fazem a exaltação de bons valores (citam o menosprezo a leões como fez o profeta Daniel na cova deles), pregam o amor aos valores católicos (“Santinha, meu negócio é Te amar”) e falam para as crianças (letras que falam de casa de bonecas). Tem até um alemão no grupo!
— Um conterrâneo?
— Gherard, senhor. Eis o nome dele.
— Gherard... músico... deve ser de Salzburgo ou Bona.
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No próprio domingo, Samarone encontrou com Chiló e foi logo dizendo que tinha se arvorado de empresário da Sanfona Coral e contou a conversa que teve pela manhã com “um padre lá do Colégio São Bento de Olinda”.
Chiló, que também ainda trazia na cabeça a alegria da classificação e muito álcool, não deu muita importância e disse que no dia 03 para ele estava beleza, inclusive porque a Kombi Coral já estaria certa para levar o grupo para mais essa apresentação. Seria até bom, mostrar o trabalho para estudantes e cooptar ainda mais tricolores.
A continuação das comemorações não deixou espaço para maiores indagações e aquele domingo foi mais uma festa.
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— Chiló, meu irmão, você não vai acreditar!
— Alô, quem fala?
— Acorda, Chiló, aqui é Sama e você não imagina no que deu aquela conversa do padre lá do São Bento.
— Morreu a conversa, foi?
— Rapaz, acorda para Jesus! As passagens aéreas chegaram, a gente viaja dia 1º de dezembro.
— Ô, Sama, vai devagar. Mesmo na Kombi Coral a gente não precisa de dois dias para chegar em Olinda. Bebesse de novo ou tá de gréia?
— Homem de pouca fé, eu estou falando é de viajar para a Itália, Vaticano, Papa Bento XVI, Daniela Mercury... tudo agora faz sentido e nós vamos!!!
Meia hora de conversa, explicações e promessas de dizer a verdade por telefone não foram suficientes para que Chiló acreditasse no que Samarone estava dizendo. Era demais. Viajar com tudo pago para a Itália, fazer um show da Sanfona Coral no Vaticano e já nesta semana...
Não deu nem meia hora e Chiló estava na casa de Samarone, vendo a documentação autorizativa da viagem, convite, folders com a programação, enfim, tudo na maior verdade. Saíram em disparada para convocar Gerrá e Malvina, além dos outros “da equipe de apoio”: Inácio, Naná, Seu Vital (para garantir a cerveja), D. Rosário (mãe de Gerrá, para pagar a promessa no local mais apropriado possível), D. Madalena (a do Fezão Tricolor, garantindo com feijão o sucesso da apresentação), João Valadares, Rita, Roberta Rego e Geórgia. A notícia foi uma bomba e a semana dos integrantes da Sanfona, os verdadeiros e os ora agregados, foi dedicada a arrumar as malas.
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Aguardemos a segunda e última parte do Conto de Natal Coral...
9 Comments:
hahahahhahahahah Muito bom!!!! tô rindo até agora, não vejo a hora de ler o próximo!!!
Yuri
Excelente!!!!!!! Só falta dizer que o tal de Bento dançou a música de Rosembrick, arrastando a sandália. hahah
maravilhoso esse texto.
quero mais...publiquem logo.
Amanhã, quinta-feira(dia 15) a Sanfona faz participação especial no programa MARACATU, BATUQUES e FOLIA, do tricolor Ednaldo Santos, na Rádio Jornal AM, a partir das 22 hs. Vai estar presente a galera do CD Veneno da Cobra Coral (Bráulio de Castro, Walmir Chagas, Bubuska...). Todo mundo ouvindo, então. Quem sabe, a rádio não recebe no ar um telefonema da Arquidiocese, ou da própria Cúria Romana, confirmando o convite, pra sair da ficção (aliás, a história está muito boa mesmo) para o terreno da realidade espiritual. Amém.
Querido Mano,
Adorei!
Beijos
hheheh... do caralho. esse texto tem q tá no livro do blog.
HAHAHA ainda tô rindo.....excelente...cadê o resto???????????
Vocês estão passando dos limites.Desse jeito nós acabar sendo mais apaixonados pelo blog do Santinha do que pelo Mais Querido.Será que foi a cana tomada por todos que gerou essa fértil imaginação.Parabéns,está muito bom.
Não existe conto natalino mais criativo q esse não...bom demais!
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