Sobre Barbosa
por Julio Vila Nova
Cléber, o paredão deste time inesquecível de 2005, veio confirmar a tradição do Santa Cruz de fazer grandes craques da camisa 1. A lista é grande e começa com Ilo Just, o primeiro goleiro, também um dos primeiros ídolos da história do futebol em Pernambuco. Incluem-se ainda nomes como Gilberto, Picaço, Wendel, Birigui, Luís Neto e muitos outros.
Nessa galeria, certamente um dos nomes de maior expressão no cenário nacional, vestindo a camisa 1 do Santinha, é o de Barbosa, citado por Rodolfo Aguiar na excelente série publicada no blog. A sua passagem por aqui, porém, não foi das mais felizes, e lamentavelmente terminou por confirmar o estigma que o jogador carregou pela vida afora, culminando com um lamentável episódio envolvendo o craque e a seleção de Parreira (aquela que ganhou o título por 0 a 0), que será relatado adiante.
Barbosa, goleiro do Santa Cruz
Já foi relatada por Rodolfo Aguiar a emocionante mobilização do povão tricolor para garantir a permanência do melhor goleiro do Brasil, à época, no esquadrão tricolor de 1956. No entanto, sua passagem por Pernambuco foi marcada por uma má atuação contra o América, que provocou reação violenta da torcida e resultou em sua saída do Santa. Jornadas infelizes de goleiros são comuns no mundo da bola, mesmo entre os ídolos, que eventualmente são perdoados pela torcida (há pouco tempo, Marcos, do Palmeiras e da seleção, levou 7 do Vitória-BA, mas foi perdoado).
Acontece que, depois de 1950, não haveria nunca mais perdão para Barbosa, mesmo todos os analistas eximindo-o de culpa pela derrota. A verdade é que, se tivéssemos que apontar os culpados, a lista começaria com a cartolagem e os políticos aproveitadores, além de parte da imprensa, que cantaram a vitória antecipada, com farra e exibição de faixas de campeão para fotos nos jornais.
A chegada de Barbosa e o desfecho infeliz de sua passagem pelo Santa foram relatados por Lenivaldo Aragão (Jornal do Commercio, 17/04/2000). O episódio que demonstra a injustiça cometida contra Barbosa pela comissão técnica de Parreira é lembrado por Eduardo Galeano. Abaixo, transcrevemos e comentamos trechos desses relatos:
Sobre a chegada de Barbosa ao Santa, Aragão comenta:
“Foi uma apoteose a chegada do grande goleiro ao Recife. Embora fosse dia útil, a torcida encheu o antigo Alçapão do Arruda para ver seu primeiro treino. ‘Nunca vi tanta gente num treino, confessava o já novo ídolo do Santa”.
Segundo a matéria do JC, Barbosa foi o craque mais festejado na vitória do Santa contra o poderoso Flamengo, de Joel, Benitez, Evaristo, Dida e Zagalo, por 1 a 0, ainda em 1956. Mas aí veio a fatídica derrota para o América, à época considerado um time grande do Recife, por 6 a 3. Sobre essa lamentável atuação, Lenivaldo diz:
“O goleiro Barbosa, que fora vítima da raça de Obdulio Varela e seus companheiros, na fatídica decisão da Copa do Mundo de 50, no Maracanã parecia, seis anos depois, refeito do grande golpe. Ídolo da torcida do tricolor pernambucano, viu de repente seu prestígio se esfarrapar, após uma lamentável atuação em que andou levando gols inadmissíveis até para um principiante, quanto mais para um profissional tarimbado como ele – além da seleção brasileira, Barbosa jogara simplesmente 20 anos pelo Vasco.”
Prossegue Lenivaldo: “Nos dias que se seguiram à goleada e ao desastre de Barbosa – que logo na segunda-feira pedia rescisão de contrato -, os jornais tiveram assunto. Nunca a frase de augusto dos Anjos, ‘a mão que afaga é a mesma que apedreja’ foi tão repetida”
“Reconhecia-se a má jornada do goleiro, mas culpava-se toda a defesa pela goleada. Outros, como o Jornal Pequeno, condenava veementemente a atitude dos torcedores que pretendiam linchá-lo.”
Aí, então, Valdomiro Silva, à época treinador dos juvenis (até hoje lembrado como um desses nomes que sempre tiveram a credibilidade que faltou e falta a muitos e muitos outros dirigentes), encarregou-se de levantar o ânimo do jogador. O jornal reproduz um trecho da carta a ele enviada :
“Prezado amigo, Moacir Barbosa. As demonstrações de hostilidade de meia-dúzia de crápulas apostadores não deve pairar no teu espírito como manifestaç~çoes da torcida do Santa Cruz...”
Poucos dias depois, Barbosa respondeu, através de carta publicada na imprensa, em tom de despedida, “pedindo sensatez,compreensão para com o time nas futuras jornadas e relembrando que nos momentos difíceis é que os jogadores mais necessitam do apoio de seus torcedores”
Lenivaldo termina avaliando que isso era “mais um castigo para um dos maiores goleiros do Brasil, que já havia sido execrado pela opinião pública nacional,por causa da hecatombe do Maracanã”.
Pouco antes de sua morte, Barbosa relembrou os tristes momentos de 1950 para um programa de televisão (TV Cultura). Das lembranças mais vivas, ele guardou no coração a decepção da volta para casa, após a partida. Na rua em que morava, no Rio, um grande banquete havia sido preparado, com mesa repleta de comida e bebida, preparada ao ar livre pela vizinhança. Entretanto, a rua deserta e a mesa rodeada de cachorros que aproveitavam o abandono da comida cortaram o coração do craque para sempre.
Em 1993, Barbosa voltaria a receber uma demonstração lamentável de intolerância e grande discriminação, desta vez promovida pela comissão técnica da seleção de Parreira, aquele time retranqueiro de futebol burocrático que venceu a única disputa por pênaltis numa final de Copa de Mundo. Foi em 1993, e quem conta é Eduardo Galeano, no seu excelente “Futebol ao Sol e à Sombra” (Editora LP&M):
“Na hora de escolher o melhor goleiro do campeonato, os jornalistas do Mundial de 50 votaram, por unanimidade, no brasileiro Moacir Barbosa. Barbosa era também, sem dúvida, o melhor goleiro do seu país, pernas com molas, homem sereno e seguro que transmitia confiança à equipe, e continuou sendo o melhor até que se retirou das canchas, tempos depois, com mais de quarenta anos de idade. Em tantos anos de futebol, Barbosa evitou quem sabe quantos gols, sem machucar nunca nenhum atacante.
Mas naquela final de 50, o atacante uruguaio Ghiggia o tinha surpreendido com um chute certeiro da ponta direita. Barbosa, que estava adiantado, deu um salto para trás, roçou a bola e caiu. Quando se levantou, certo de que havia desviado o tiro, encontrou a bola no fundo da rede. E esse foi o gol que esmagou o estádio do Maracanã e fez o Uruguai campeão.
Passaram-se anos e Barbosa nunca foi perdoado. Em 1993, durante as eliminatórias para o mundial dos EUA, quis dar ânimo aos jogadores da seleção brasileira. Foi visita-los na concentração, mas as autoridades proibiram a sua entrada. Naquela época, vivia de favor na casa de uma cunhada, sem outra renda além de uma aposentadoria miserável. Barbosa comentou:
- No Brasil, a pena maior por um crime é de trinta anos de cadeia. Há 43 anos pago por um crime
que não cometi.”(p.94)
15 Comments:
Putz,
tão dizendo que o Carlinhos Bala pode ir para o Grêmio de Regatas. Será que ele também se vendeu?
Putz,
tão dizendo que o Carlinhos Bala pode ir para o Grêmio de Regatas. Será que ele também se vendeu?
Fazer-se passar por terceiros também se enquadra em crime de falsidade ideológica. É só para um pouquinho pra pensar, e, tenho certeza, vai aparecer imaginação suficiente para criação de um novo codinome. SAUDAÇÕES TRICOLORES!!!!
#Será que Iranildo não seria uma boa para criação do meio campo Tricolor? É certo que vão falar de salário alto mas, o que vai acabar acontecendo é a saída de Rosembrick, a contratação de 02 ou 03 que não vão dar certo e o valor das rescisões vai sair bem mais caro.
ass: O Analista-DF (o verdadeiro, primeiro e o mais liso).
Ao repórter que escreveu essas asneiras, é melhor ganhar uma Copa nos Penaltis do que ser vice, coisa que entendemos bastante, subindo para a 1ª na rabeira dos outros (1999 e 2005). Eu preferiria jogar feio e ser campeão do que jogar bem feito o Santa jogou e ser vice... do que adinatou? De Porra nehuma!!!
almirmisterius@ig.com.br
Peraí rapá!
Cadê o Espírito de Natal?
Sugiro p/ você "Almirmisterius", aquela geladinha de segunda-feira, uma espécie de treino regenerativo.
SAUDAÇÕES TRICOLORES!!!!!!!!!!!!!!!
Que babaca. Ser campeão ou vice da Série B é a mesma coisa. Sobe do mesmo jeito. A única que se vangloria desse título (campeão da Série B) é justamente a coisa (1987). De que adiantou jogar bonito e não ser campeão? Subir à 1a. Divisão com honras e méritos.
Pois é, anômimo, é a mesma coisa. Só não entendi porque a torcida e o time do Santa estavam festejando o campeonato antes das barbies entregarem o jogo.
Prezado almirmisterius, tomei uma cachaça arretada em 94 (pela seleção), assim como em 99 e agora em 2005 com o Santinha. Mas isso não me impede de dizer que só ganhamos a copa por causa de Romário (mais Bebeto e mais um ou dois, no máximo), e que alguns jogos ali foram verdadeiras sessões de tortura (lembra do empate com a Suécia ?). É claro que ganhar é melhor, ainda mais se for jogando bola mesmo, e não catimbando e apelando pra pancadaria, como o Grêmio de Pelotas. Agora, pelo futebol mesmo (sem considerar o resultado), sempre considerei melhores a Holanda de 74 e 78, bem como o Brasil de 82. Só isso ! Se invoque não, meu véi !
Inácio e Sama, ganhei um diploma do almirmisterius ! Será que tem uma vaguinha de estagiário na redação do blog , nem que seja pra escrever umas asneiras ? (He he he he)
Julio Vila Nova
Eu sou Tricolor de coração, mas se vangloriar de apenas subir à 1ª Divisão é coisa de quem pensa muito pequeno. É por isso que os times do eixo sul e sudeste (mais precisamente SP) dominam amplamente o futebol, ninguém se contenta com vice, ou vc acha que o Corinthians e o SPFC comemorariam se fossem vice do Brasileirão e do Mundial respectivamente? Igual nós fezemos em 99 e 2005 subindo no bigú de Goiás e Grêmio?
É melhor revermos nossos conceitos e parar de ficar festejando coisas pequenas, pois se o fizermos acho que vamos ser pra sempre vassalos do futebol sulista o melhor do Brasil.
Graças a Deus não estava vivo na época de Barbosa no Santa!!!!!
Não queria o inimigo nº 1 da nação defendendo meu time!!!
almirmisterius@ig.com.br
Barbosa foi um excelente goleiro e, pelo que todos falam, um belo ser humano. A imprensa brasileira dos anos que seguiram ao maracanaço de 1950, incapaz de enxergar a eficiência dos uruguaios, o transformaram num bode expiatório. Nada melhor do que um bode expiatório negro. Sou tricolor e tenho orgulho de torcer por um time onde já jogou o grande Barbosa, o melhor goleiro dos anos 50. Estúpida nação que transforma em inimigo um homem de bem. Tente não perpetuar essa estupidez ao longo dos séculos, meu caro Almir.
Baltazar
Estupido ou não, não acho que gostaria de ver um cara que foi repudiado por toda uma nação defendendo meu time.
almirmisterius@ig.com.br
Ô almirmisterius@ig.com.br, ninguém discute que ser campeão jogando feio é melhor do que ser vice jogando bonito. Esqueça esse detalhe. O problema maior é que você está comparando Campeonatos com "C" maiúsculo, com esse da Série B. Esse último é diferente até do Campeonato Pernambucano (nunca vi nenhum torcedor do Grande Santa vibrando por ter sido vice). Mas, no caso da Série B, o problema não é a reclamada acomodação com o vice-campeonato, mas sim o fato que ser campeão dela não significa nada. Ser campeão e vice DESTE CAMPEONATO é realmente a mesma coisa. Por falar em coisa, esse é o único time que conheço que comemora ter sido campeão da Série B (1987 e 1990). Quanto a falar mal de Barbosa, sem nunca o ter visto jogar, acho que você está sendo deselegante, o que é inapropriado para um legítimo torcedor tricolor. Carlos Alberto.
Até onde eu sei, o time do Brasil que perdeu para o Uruguai na final de 50 tinha 11 jogadores. Barbosa era apenas 1 deles. Já que se tratava do melhor time, os outros jogadores também tiveram responsabilidade por não fazer os outros gols, ou mesmo travar Giggia (não sei se se escreve assim mesmo) antes dele chutar aquela bola da virada. Carlos Alberto.
almirmisterio, Rivaldo foi um jogador que cansou de ser repudiado por grande parte de nossa torcida, não é mesmo ?
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