Como uma paixão se revela
por Júlio Bandeira (pseudônimo de outro jornalista tricolor, repórter de esportes e que, por isso mesmo, precisa manter o sigilo de sua identidade)
Era a final. O refúgio era um Corsa. O som emitido pelo rádio, cheio de ruídos, era a minha ligação com o templo que, nem sabia na época, iria se transformar no meu reduto. Sim, era o Arruda, cheio de gestos e gritos, como eu ficaria acostumado a ver. O Santa Cruz estava em campo, decidindo o segundo turno do Campeonato Pernambucano. Naquela tarde de maio de 2000, porém, eu estava longe.
Havia chegado há pouco mais de um ano no Recife. Cambaleava no casulo, sem nutrir qualquer paixão pelo futebol pernambucano, apesar de admirar o esporte. Conheci os fanáticos, de várias cores e estereótipos. Torcedores de cálida arrogância, preocupados mais com a tristeza, impacientes e até fúteis. Torcedores silenciosos, de glórias passadas e futuro incerto. E outros tantos sofredores.
Era o início. Foi natural. Começou na dor contida da derrota parcial. Longe do estádio, senti pela primeira vez a horrível sensação de levar um gol. Hoje imagino a cena nas arquibancadas naquele tarde. A bandeira recolhida em silêncio. Os olhos apertados, buscando explicações, encontravam espelhos. Quantos palavrões, quantos culpados apareceram? Desabafo de um, de dois, de três. Volta o aplauso, música que clama a reação.
Sofredores e vencedores apaixonados. Uma nação de cabeça erguida, pronta para entrar em campo. Um povo simples, capaz de transformar vilões em ídolos em questão de segundos. Capaz de subjulgar a tristeza, nem que por 90 minutos. Guerreiros da vida, guerreiros do campo. Virei um deles.
Nesse dia, quem vestia a camisa do Santa Cruz, escutou os brados e pôs fim ao drama. O alívio da igualdade. O primeiro grito de gol. Felicidade compartilhada pelo rádio. O barulho da inconfundível da torcida coral. Nascia mais um tricolor. Pé quente. O segundo gol veio logo depois. Imagino todos procurando dividir a empolgação, encontrando abraços em meio as escadarias.
A vontade era estar no Arruda. Os olhos se fechavam, imaginavam cenas, remetiam à memória e se abriam voltados ao céu. A noite se fazia presente e aumentava a agonia, superada na redenção, no terceiro grito solitário de gol. Um chute enviesado acerta as redes e milhares de almas tricolores.
Descobri, na saudade antecipada, a paixão. Um amor incondicional celebrado, hoje, na cerveja com os amigos antes de mais uma partida. Nos comentários adversos nas arquibancadas. No aprendizado lento dos hinos e gritos de guerra. No abraço em um dos tantos desconhecidos ao gritar mais um gol, comemorar títulos, festejar a alegria.
2 Comments:
ora, ora, mas o blog começou a descobrir poetas tricolores. Que bela crônica chegou ao nosso blog, seu Inácio...
samarone
que saudade do arruda....
muito bom esse blog!
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