Cartas de tarô
por Inácio França
"Tenho um baralho de tarô aí numa dessas gavetas".
Estávamos no finalzinho do jantar, já raspando a panela de risoto, quando a alvirrubra que tomou conta do meu coração fez essa revelação esotérica. Não sei exatamente porque as cartas apareceram na conversa, mas pouco antes falávamos sobre coisas do amor.
Como nunca tinha sido apresentado a um baralho de tarô, pedi para trazê-lo, principalmente porque vinha acompanhado de um manual de instruções, pois era brinde de uma revista feminina. Seria possível brincar de ver o futuro.
Quis saber o que o tarô dizia sobre o Santa Cruz e a luta pela Primeira Divisão. Aposto que seres humanos normais aproveitam para saber se vão ganhar dinheiro ou se terão sorte no amor, mas um sujeito que faz um blog como esse, decididamente, não é normal.
Cortei o baralho seguindo as instruções da revista e escolhi as cartas. Não vou dizer como é que se faz isso para evitar que um chatíssimo lenga-lenga afaste os leitores neste parágrafo, mas posso garantir que a última carta foi a de número 11. Interpretei como um sinal óbvio que Carlinhos Bala vai marcar um gol decisivo.
Lendo o manual, a dona do mais belo par de olhos negros que conheço explicou que a primeira carta significa o "ponto de partida e está associada com as circunstâncias a favor ou com o passado". Nessa posição estava O juízo, uma carta que se refere ao "discernimento, objetividade, razão e reflete imparcialidade, com justa medida". Ora, era uma referência clara a Givanildo Oliveira, cuja contratação foi o ponto de partida para o excelente desempenho em 2005. Duas linhas abaixo, a certeza que minha interpretação foi acertada: "Reencontro com alguma coisa que vem do passado e se mostra noutra face... reconciliação com o passado. Renascimento". Givanildo, é lógico. Alguém duvida?
A segunda carta simboliza, segundo a tal revista, como nos relacionamos com aquilo que está ao nosso redor, mas também diz respeito "às circunstâncias contra e o futuro imeditado". A que estava na mesa era O Diabo. Quase que desisto. "Enganador, mentiroso e traiçoeiro... é o inimigo íntimo". Talvez tenha alguma ligação com a diretoria do clube, mas havia um recado claro na linha final: "Resolva as questões em privado antes de as expor em público. Preste atenção a papéis, contratos e acordos". Aí, entendi tudo. Os cartolas precisam pagar os salários dos jogadores, senão podemos nos complicar.
O louco foi a terceira carta cuja posição, entre outras coisas, se relaciona com os fatores que serão decisivos no futuro. Esse personagem do tarô é "livre de culpa, fora das normas, aventureiro, encontra tesouros onde outros não os vêem. Sem possuir nada, tem tudo". Essa foi fácil: é a torcida coral, que será fundamental nos próximos jogos e se encaixa como uma luva na descrição acima.
Confesso que não gostei da quarta carta. Aliás, nem entendi direito o que caracteriza essa posição, pois se refere aquilo que está na raíz e, por isso mesmo , está mais oculto. Associa-se também "às motivações íntimas". Eu puxei uma carta chamada O Enforcado, coisa que achei de mau-agouro, principalmente por causa desse trecho do seu conteúdo: "Por muito desagradável, humilhante o incômoda que seja sua posição, continue à espera e tenha esperança". O riso quase-gargalhada da alvirrubra à minha frente era uma insinuação de que nós, tricolores, continuaríamos esperando pela primeira divisão. Mas, agora, entendo que não, afinal a carta diz respeito à nossa motivação íntima, ou seja, a esperança. Vamos adiante.
Pelo que entendi desse negócio de tarô, a quinta carta é a tampa de crush. E eu puxei O Sol. Bom sinal. A quinta carta (lembra que era 11 ª do monte?) é a chave, o eixo, a síntese de tudo. E o sol tem uma mensagem otimista, pois fala que tem uma energia que a tudo contagia, "distribui boa disposição, amor, calor e movimento". E fala de "prazeres imediatos". Beleza! Mas, adverte: "Não se deixe deslumbrar por nada, nem por ninguém. Nem tudo que reluz é ouro". Sabem o que isso quer dizer? Que é só deixar de já-ganhou e esquecer o primeiro lugar na fase inicial, que isso faz parte do passado, reluz, mas não é o ouro da Primeira Divisão.
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