Neto Futebol Clube
por Inácio França
No dia 1º de abril deste ano, a nutricionista pernambucana Fabiana França (minha irmã caçula) começou a trabalhar na cidade de Miguel Calmon, no sertão da Bahia. De manhã, ela se apresentou aos seus chefes na Secretaria Municipal de Saúde. Entrou na sala do secretário-adjunto e, enquanto recebia as primeiras orientações, ficou de olhando meio de banda pro monitor de um computador com uma foto do time Santa Cruz como descanso de tela. Alvirrubra, pensou: “vixe maria, até aqui tem esse povo fanático”.
Saiu da secretaria e foi ao posto começar o atendimento e... a agente de saúde vestia uma camisa do Santa Cruz, com listas horizontais e com o patrocínio da Minasgás, novinha em folha. “Oxiiii, até a agente de saúde...” O segundo paciente que atendeu apareceu na sua frente com um boné preto, branco e vermelho, com escudo do tricolor do Arruda.
Na hora do almoço, ela viu outro sujeito com a camisa do Santinha perto da rodoviária e na praça, em frente à igreja, passou um carro com uma bandeirinha tricolor presa na janela. Foi demais. Deixou de lado a vergonha e perguntou para um funcionário do posto o porquê de tantas camisas tricolores espalhadas pela cidade. A resposta simples e direta: “Porque o Santa ganhou o campeonato ontem de noite”. A resposta até que poderia ser convincente, se Miguel Calmon não fosse na Bahia e estivesse a quase 1.000 quilômetros da avenida Beberibe.
No mesmo dia Fabiana descobriu, com ajuda do tal secretário-adjunto que aparece na foto lá em cima, que atualmente o clube com maior número de torcedores na cidade é o Santa Cruz, ou melhor, a maior torcida é a do volante Neto, filho da terra e parente de metade dos 31.000 habitantes do lugar. A outra metade é de amigos dele ou de seus pais.
“Antes de Neto ir pro Santa Cruz, todo mundo aqui torcia pro Flamengo, Vasco ou Bahia. Eu mesmo, acesso a internet todos os dias e acompanho os jogos do time pela TV a cabo”. Esse entusiasmo é do secretário-adjunto, Reinaldo Miranda Júnior, amigo de infância de Neto, com quem conversei por telefone.
Neto, pelo jeito, fez história no futebol de Miguel Calmon. Ele foi zagueiro da seleção local. “O melhor zagueiro da cidade”, assegura Reinaldo. Por sinal, hoje o uniforme da seleção é preto, branco e vermelho, levado por Neto no ano passado.
Reinaldo disse que Neto é apaixonado pela torcida tricolor. “Antes de jogar no Santa, o sonho dele era jogar no Flamengo ou no Bahia, mas ele disse que agora ele só troca o Santa por um time da Europa. Depois do título, ele me ligou dizendo que tinha ficado emocionado com a festa que a torcida fez e com o desfile no Carro de Bombeiros”.
Depois da Segundona, Reinaldo vai viajar pro Recife. “Vou conhecer a cidade. Neto vai me levar pra comer lazanha num restaurante que ele conhece aí”.
1 Comments:
em uma tarde do ano de 2000, se não me engano, desci sozinho na cinzenta sampa, como nunca havia aportado nesta cidade sem alguém a me ladear, fiquei um pouco perdido, principalmente porque teria que resolver as coisas rápido para viajar, logo em seguida, para santa catarina. pois a ansiedade viajou para longe quando avistei uma camisa tricolor. pensei que seria um bambi, mas era um cara trajando - feliz da vida, diga-se, uma camisa da inferno coral. logo conversamos alegremente e ele serviu de guia.
ao chegar ao meu destino final, no meio do Sul, me alojei e corri para assistir ao jogo do santinha na tv. arrudão lotado - lindo, como sempre, quando o time fez um gol, a massa pulava, explodindo em alegria, eu também, mesmo à distância, quando percebi alguns fogos sendo estourados em uma casa próxima ao bar. não é que era a casa de uma família de tricolores. o dono tinha vindo ao recife para trabalhar e, no tempo em que ficou aqui, se apaixonou pelo santinha. voltando para lá, fundou uma torcida organizada no bairro, com direito a time de futebol e tudo mais do nosso amado santa cruz. tricolor de norte a sul.
esta seria uma excelente pauta para jornal. abçs,
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