O caso da gaia indolor
por Inácio França
O sujeito sentou-se na outra ponta da mesa, trazido por algum amigo de algum amigo meu. Nunca o tinha visto antes, mas a cara dele indicava que as coisas não andavam bem. Escutei cinco minutos de conversa com o tal amigo do amigo e entendi que o sujeito tinha sido, de acordo com a linguagem politicamente correta, “substituído no leito conjugal por outro cidadão”. O cara tinha levado uma gaia federal. E estava ali, uma hora antes do jogo do Santa Cruz começar, chorando suas mágoas em plena churrascaria Colosso.
Testemunhei esse drama todo há uns quatro anos, num domingo à tarde, pouco antes de uma partida do Santinha pela finada Copa do Nordeste ou pelo Brasileiro da Primeira Divisão. Por isso, não lembro o nome de nenhum dos personagens. E, mesmo se lembrasse, não iria contar.
Enjooei logo daquele melodrama sobre a mulher que saiu de casa, o abandonou e, na semana seguinte, foi morar com outro. Avaliei a importância dos assuntos em pauta na mesa e decidi que seria mais interessante descobrir qual a escalação do time adversário, com ajuda de um colega que mantinha um radinho colado no ouvido.
Até que o cara da gaia abriu seu coração. Sério, com os olhos meio vermelhos e tentando enxergar alguma coisa que parecia perdida no fundo do copo, escancarou: “O que me chateia mesmo, o que está me arrasando, é que parece que o namorado dela é rubro-negro. Foi o que me disseram. Parece que levei gaia de um rubro-negro! Se for verdade, aí é que tô desgraçado pra sempre”.
A partir deste momento, a mesa ficou solidária. Um dos amigos pediu para ele esquecer, o outro aconselhou que ele não pensasse mais no assunto e outros foram sinceros, admitindo que aquela possibilidade era terrível. Fiquei calado, mas pensei se não seria o caso de assistir ao jogo da geral, longe dele, para não dar azar.
Quinze minutos antes das quatro da tarde, chegou a hora de entrar no Arruda. O grupo saiu por aquele portão do estacionamento da Colosso, na rua do Canal e, assim que botou os pés na calçada, o sujeito da gaia de uma risada (prefiro repetir “sujeito da gaia” do que chamar o tricolor de corno, seria muita indelicadeza com um personagem tão simpático) e ficou eufórico de repente: “Olhem quem está ali! É fulana! Fulana e Sicrano, ele não é rubro-negro, não. Sicrano é tricolor”.
A descoberta o deixou tão empolgado, que atravessou a rua e foi até lá cumprimentar a ex-mulher e o novo titular da posição. Abraçou a ambos com entusiasmo, deu tapinhas nas costas do substituto. Ficou alegre mesmo, parecia um menino. Nem percebeu o constrangimento do casal e, já nas arquibancadas, arrastou os dois para sentar ao seu lado. No intervalo, ambos sumiram dando a desculpa que iriam comprar guaraná. “Tem problema não, o cara é tricolor. Tá tudo em casa”, sentenciou, livrando-se da dor e economizando anos de psicoterapia.
1 Comments:
Inácio, chega a ser cômico que o primeiro comentário tenha sido justamente de um rubronegro. Isso é que é se interessar pelas coisas do Santinha!
Amigos, vai dar um pouco de trabalho para muitas pessoas de outros times entenderem que estamos celebrando nosso time, dando uma contribuição a uma cultura que envolve uma tabelinha preciosa entre o futebol e as letras.
Sigamos com nossa alegria de torcer pelo Santinha e deixemos de lado essa cultura rasteira da esculhambação pela falta de criatividade.
A história é ótima.
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