Este blog mudou de endereço! Redirecionando…

Você será redirecionado para o novo site em 5 segundos. Se não quiser aguardar, clique aqui: www.blogdosantinha.com.

quarta-feira, 2 de novembro de 2005

Infância no Arruda: lembranças de um OVNI

por Ivan Patriota, formado em Computação e programador de jogos para celulares. É o cara da foto aí em cima. Um suspiro curto e uma longa lembrança da minha infância, foi assim que comecei a escrever este texto. Não faz tanto tempo assim, hoje eu tenho trinta anos, mas lembro, como se fosse ontem, dos meus pais me levando aos jogos do Santa Cruz no Arruda. Iamos nós quatro, eu meu pai, minha mãe e minha irmã que é mais nova. Eu devia ter em torno de seis anos e minha irmã uns quatro. Antigamente, pessoal, a violência era bem menor e íamos aos jogos com tranqüilidade, mesmo à noite. Aliás, eu me recordo mais dos jogos à noite, pois meus pais levavam um colchonetezinho para minha irmã deitar sempre que pegasse no sono. Como se não bastasse, minha mãe preparava um lanche pra mim. Não tava nem aí pro jogo, preferia me divertir naquela parte inferior das sociais, jogando bola com mais alguns tricolores-mirins que lá estavam. Era uma festa! Llembro bem do placar do Arruda, que, se não me falha a memória, eram placares: dois, um atrás de cada barra. Vocês lembram disto, ou estou completamente maluco? Nesta época, houve alguns jogos que meu pai não me deixou ir, mas um deles, eu tenho certeza que, pelo menos, vocês já ouviram falar: a final de 83. Meu pai foi com minha mãe e o Arruda estava lotado. Como meu pai é sócio patrimonial, eles ficaram nas sociais do Arruda. É bola pra cá, é bola pra lá, e finalmente é chegada a hora dos pênaltis, minha mãe queria ir embora, mas meu pai se negava a sair do jogo naquele momento. O véio, coitado, fumava mais que uma caipora e minha mãe, em um determinado momento, iniciou um contudente diálogo com meu pai: - Ivan, vamos embora! - Filha, na hora dos pênaltis? De jeito nenhum. - Vamos emb... TUMMMM!!! Um Objeto Voador Não Identificado (OVNI) arremessado (depois identificado como sendo uma sandália de couro) muito possivelmente das cadeiras, acerta o olho da minha mãe, pois ela estava meio de lado enquanto os pênaltis não começavam. Aí foi desespero. O catombo fechou o olho de mainha. E lá vem mais diálogo... - Ivan, agora vamos!!! - Mas filha, e o jogo? - O jogo? Pois, bem... Minha mãe, paraibana da cidade de Sumé, arrancou a aliança de sua própria mão e a "arremessou" em direção ao campo. Meu pai, como se nada tivesse acontecido disse: - Mas filha, tenha calma! - Que calma o que.. olha o meu olho. Discussão pra lá e discussão pra cá, o Santa Cruz sagrou-se campeão. Neste jogo Luís Neto defendeu um pênalti em cima da linha. Bem, os dois voltaram pra casa. Mas a volta não foi tão simples assim para contar em duas linhas. Como o Arruda estava lotado, meu pai decidiu sair pela parte superior das sociais e descer a rampa do canal. Pra quê? A rampa cheia de gente, minha mãe (paraibana, faço questão de repetir) se arretou, subiu na mureta da rampa, apoiou-se no povo que estava na mureta também e desceu mais rápido do que os outros. Chegando no carro, o silêncio pesou. Quando os dois chegaram em casa, eu já estava na rua gritando, pulando e cantando os hinos do Mais querido... meu pai nem buzinou muito e quando vi minha mãe daquele jeito não quis nem conversa, fui direto tomar meu banho e dormi cedo sem que precisassem mandar . No dia seguinte, meu pai chega do trabalho com uma aliança nova e mais uma vez houve o diálogo entre os dois. Foi, no mínimo, cômico: - Filha, olha a aliança aqui. Comprei outra. - Comprou foi? Bem feito. Pois eu não joguei a aliança fora, não. É amigos, a paraibana é braba, mas não teve coragem de jogar sua aliança. Ela simulou que tinha jogado a aliança fora e painho acreditou. Hoje, com 30 anos e casado, tenho a felicidade de poder ir aos jogos e encontrar meus pais nas sociais. Eles vão a todos jogos no Arruda. E não é que minha mãe ainda leva biscoito maizena e me chama no intervalo pra gente comer! Mãe é mãe. Meu pai ainda tem bandeirinha em seu carro e comprou outra para amarrá-la na varanda de seu apartamento. Minha mãe, ainda hoje, quando escuta rádio à tarde, sempre me liga se tem alguma novidade do Santinha: "Júnior, o Santa contratou fulano. Júnior, Bala foi absolvido". No último jogo, minha mãe não conseguiu olhar para o pênalti. Parece que pressentia o pior. Sentada ficou e meio que em prece ela baixou a cabeça e só "escutou" o lamento silencioso da torcida. Mas, na comemoração do gol, meu pai a abraçou e a levantou até onde pode. Nem precisa dizer, mas os olhos agora estão cheios de lágrimas e as boas lembranças ficam ainda mais vivas em minha mente: 86, 87, 99, 2005, o golaço de Luizinho Vieira contra o Flamengo, Marlon (eita ponta direita bom danado), etc. Como não ter esperança num momento como estes Mas ser tricolor pra mim não é simplesmente torcer pelo Santa Cruz e ir aos jogos. Ser tricolor pra mim é me levantar às 02h00 da manhã e escrever este texto por alguns minutos e revisá-lo por mais um bocado. Mesmo sabendo que faltariam horas no mundo para agradecer aos meus pais por tudo que me ensinaram e para escrever as boas lembranças do meu amado Santa Cruz. Quis expor aqui no Blog uma pequena fração do que, para mim, significa ser tricolor. Seu Ivan e Dona Célia, muito obrigado.

8 Comments:

Anonymous Anônimo said...

Belo depoimento, Ivan. É assim, de alegrias e algumas tristezas (mas sobretudo de boas lembranças) que vai se forjando a alma tricolor. Quem, como eu, ainda tem a felicidade da presença e da companhia dos pais, reconhece um pouco de si nesse relato. Nós, que estamos já na casa dos trinta, temos muito a sensação de que o Arruda é a extensão de nossa casa. Infelizmente, a violência e o justificado medo de muitos pais afastam tantas crianças ali do convívio com nosso Mais Querido. Já foi bem diferente, não é ? Lembra dos tamancos de madeira no formato do escudo do tricolor, que eram vendidos - ou distribuídos, não tenho certeza - para a torcida fazer barulho ? Tinham umas alças em três cores para apoiar as mãos e eram verdadeiros instrumentos de percussão. Hoje em dia, fatalmente seriam armas usadas para agressão. Uma pena ! Vamos juntos, confiantes na volta por cima !

11/03/2005 07:30:00 AM  
Anonymous Anônimo said...

Devo admitir q as lágrimas rolaram em meu rosto ao ler tal depoimento tão verdadeiro!!
Se vcs acreditam q a violência muitas vezes preocupam os pais,imagina os meus??Eu como mulher muitas vezes sou até chamada de louca por minhas amigas,por continuar indo aos jogos do Santa(meu pai ñ me acompanha mais pq mudou-se de Recife),mas como uma obidiente,obstinada e verdadeira tricolor,ñ me deixo abater por críticas e medos dos outros,vou pro Arruda e pronto!!Mesmo qndo a barra pesa(como num jogo contra o América-MG-1999,em q o Santa perdeu de 1x5 e a polícia soltou os "cachorros" literalmente na torcida e eu tive q correr muuuuuuito pra não apanhar,eu ñ deixo de ir aos jogos!!É mais forte do q eu,ñ sei explicar,ter o Santa no coração definitivamente é uma herança q ñ tem como agradecer a meu pai,apenas matenho contínuo o amor q tenho pelo "Mais Querido",e sei q é nessa forma q meu pai quer q eu agradeça!!

11/03/2005 08:01:00 AM  
Anonymous Anônimo said...

belo texto, meu velho. Me emocionei com essa história de amor familiar e amor ao Santinha.
abraços,
samarone

11/03/2005 09:24:00 AM  
Anonymous Anônimo said...

É isso ai Ivan. Que sirva de lição aos tricolores que pensam em jogar a toalha!!! O Santinha vai mostrá-los que estão enganados e eu vou beber até o mundo se acabar depois da lapada nos alvi-rosas da rubro e silva.

Abraços e até a feijoada,

Saulinho

11/03/2005 11:09:00 AM  
Anonymous Anônimo said...

pensei que este grande tricolor havia sumido do mapa! parabéns pelo texto!

saudações tricolores.

11/03/2005 11:56:00 AM  
Anonymous Anônimo said...

Grande Total Flex! Esse é o pseudônimo de Ivan da Burra (mais uma alcunha -> primeiro sinônimo do word) quando vai ao arruda. Isso porque a cana é grande e vale misturar de tudo.

Uma frase que eu digo desde que me entendo por tricolor (leia-se gente por sinonímia):

"Obrigado papai, obrigado mamãe! Nasci tricolor!"

11/03/2005 05:34:00 PM  
Anonymous Anônimo said...

meu querido tricolor, quantas lembraças passaram por minha cabeça ao ler seu depoimento. senti-me parte de sua família. e me atrevo a dizer q faço, afinal, somos da torcida Cobra-Coral, n somos? Deus queira q minha tricolinda filhinha tb guarde tantas boas lembranças do pai e do santinha. e Deus queira q meus netos, bisnetos e quantos vierem depois, sigam a tradição familiar de serem tricolores do arruda.
vamos rumo ao título da B. próximo ano quero comemorar o bi.

11/05/2005 08:46:00 AM  
Anonymous Anônimo said...

Valeu Ivan, belo texto, só quem tem tem grande amor pelo seu time é capaz de escrever um texto de uma forma apaixonante e comovente como essa. Parabéns ao Santa Cruz, que agora, mais do que nunca, precisa de seus abnegados torcedores empurrando-o rumo à primeira divisão.

11/15/2005 09:44:00 PM  

Postar um comentário

<< Home