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quinta-feira, 29 de setembro de 2005

De como se faz a tradição

por Júlio Vila Nova, músico e mestrando de Letras da UFPE. É pai de Lívia de Castro Alves Vila Nova, pequena tricolor que balança de amor um coração quanto canta com a voz miúda de dois anos de idade: “Papai um dia me ensinou a ser feliz / olhar a vida com respeito e muito amor / a ser criança, cultivar minha paixão / e conservar meu coração bem tricolor” (PAPAI TRICOLOR, de Fátima de Castro) Amigos tricolores, este momento de alegria que vivemos com o nosso Santinha deve ser aproveitado com todo empenho. É preciso pendurar a bandeira tricolor na janela; ouvir o repertório todo dedicado ao Santa (por exemplo, os frevos e sambas do CD Veneno da Cobra Coral, de Bráulio de Castro); ir ao estádio, vibrar a cada gol a plenos pulmões, e emocionar-se quando ouvir de novo no rádio; tirar muita onda com os rivais (principalmente a coisa, é claro !); tomar muita cerveja (quem puder, se não for dirigir). Tudo isso porque o tricolor tem deixado a certeza de que, num futuro distante, quando estivermos levando nossos netos ao Mundão, matando sua curiosidade sobre as glórias do Santinha, teremos o orgulho de dizer “Eu vi aquele time jogar !”. E declinaremos a escalação inteira, de um fôlego só. Podemos sem receio falar assim, sem perigo de soarmos arrogantes ou pedantes, porque isso não é do feitio tricolor. Somos apenas o povão feliz, caminhando pelas ruas da cidade, descendo os morros, enchendo os ônibus, becos, bares da felicidade em três cores. Ficamos particularmente emocionados pelas crianças, que estão agora aprendendo lições de tradição no embalo das vitórias dessa campanha fantástica no Brasileiro, no peito ainda a faixa gloriosa de campeão pernambucano de 2005. Nós, que acompanhamos há muito os caminhos dessa História, sabemos que é mais doloroso aprender ou relembrar tais lições em época de revés: uma olhada na participação do Santa no campeonato pernambucano, por exemplo, mostra amargos intervalos sem taça, como esse de nove anos que quebramos agora. No entanto, aprendemos. E ensinamos. E é bom ter sempre na ponta da língua nossas muitas razões de sermos tricolores, a qualquer momento: seja na alegria confiante de mais um título em que, por toda fé e energia empenhadas, acreditamos; seja na descrença pelas fracas campanhas que muitas vezes, ainda assim, acompanhamos até o fim. Não importa. Para os que batem no peito inflado de empáfia o argumento de que vale mais a quantidade de títulos, lembramos que vale mais mesmo a qualidade dos títulos incontestáveis, conquistados na base do talento, de fato e de direito (como os nossos, todos, a exemplo deste, de 2005). Não se pode falar em tradição sem uma olhada para trás, em busca de saber quem começou e quem ajudou a continuar esta História. Quando os outros relembram seus heróis, poucos conseguem dizer as escalações das suas primeiras equipes, cheias de Lathans, Olivers, Franks, Pickwoods, Kings, Grants, Smiths, alvi-rubros e rubro-negros da mesma estirpe britânica, uma infeliz elite outrora crente que os campos seriam para sempre seus. Nós, evocando os primeiros garotos reunidos na calçada da Igreja de Santa Cruz, dizemos nossos heróis assim, mais simples: Ilo e Pitota (primeiros ídolos), Tará, o homem de dez gols num jogo só (“depois de Garrincha e Pelé, vou lhe falar, o maior do mundo foi Tará”, canta Bráulio de Castro), Lacraia (o primeiro negro), Sebastião da Virada, Zé de Castro, Nequinho, Sidinho, Siduca, Mazinho, Betinho, Givanildo, Birigüi, Zé do Carmo, Valença, Bala... (Rozembrik é simplesmente o Mago). E o Santa Cruz é simplesmente O Mais Querido ! Clube das Multidões ! Ora, alguns troféus a mais em outras salas podem render algum orgulho. Que sejam felizes com ele! Mas não incomodarão nossa certeza de que a tradição se constrói solidamente sobre algo mais. Temos feitos heróicos para contar ! Mostremos às nossas crianças as páginas de livros e jornais que contam esta História: a primeira vitória de um time do Nordeste contra uma equipe do sul (Santa 3 X 2 contra o Botafogo-RJ) e as comemorações que ofuscaram a passagem de Santos Dumont pela cidade, em 1919. A vitória contra a Seleção Brasileira em 1934. A maior virada da História, contra o América, em 1917, e a espetacular conquista do campeonato de 1993, em cima do náutico. A maior goleada em clássicos (7 X 0 contra o sport, em 1937: vejam a bola do jogo, exibida lá em nossa sala de troféus, cuidada com zelo por Dirceu Paiva). O nome do único jogador de um clube nordestino a figurar entre os artilheiros do Campeonato Brasileiro (Ramon, em 1973). As vitoriosas excursões internacionais: na década de 70, invicto contra times como Paris Saint Germain e seleção da Romênia; ou na década de 90, também invicto, com o pioneirismo de levar o futebol aos vietnamitas, campeões em campos de batalhas mais cruéis. E que tal os meninos do futsal na Suíça, de onde voltaram campeões invictos este ano, após vencer equipes européias como Werder Bremen e Bayer Leverkusen, da Alemanha ? Por fim, não dá pra falar em tradição sem que todos esses nomes e feitos heróicos sejam eternizados em alguma forma de arte, por essa gente tricolor, abençoada pelo dom de fazer o mundo melhor a cada vitória. Para sorte nossa, ou por merecimento mesmo, a nossa arte é a música. A música popular, é claro! Em Pernambuco, é o Santinha que junta melhor no caldeirão cultural os ingredientes de nossa identidade brasileira, pernambucana: frevo, carnaval, futebol, forró e alegria do povo. Muito obrigado, Capiba, Levino Ferreira, Nelson Ferreira, João Santiago, Edson Rodrigues, Irmãos Valença, Bráulio de Castro, Fátima de Castro, Maciel Melo, Getúlio Cavalcanti, José Menezes, Walmir Chagas, Antônio Carlos Nóbrega, Naná Vasconcelos, Maestro Forró etc. etc. etc. Saudações tricolores ! E viva a Sanfona Coral !

1 Comments:

Anonymous Anônimo said...

Concordo com você, são dessas coisas que eu mais me orgulho em ser Tricolor. Eu me orgulho de ser povo, de ser negro, de ser gente... não entra na minha cabeça como alguém consegue se orgulhar de ser "elite" (vide alvirubros). Um forte abraço e parabéns pelo blog.

9/30/2005 03:23:00 PM  

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