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terça-feira, 9 de maio de 2006

Fome de Bola*

Texto: João Valadares/Foto: Rodrigo Lobo A pátria de chuteiras está descalça. É com os abraços dos magricelas e com os pés no chão duro da favela que o futebol se inventa. A meta, formada por duas latas enferrujadas, é invadida pelo chute sem seriedade. A alegria chega assim. De carrada. Perfeitamente redonda. A periferia reinventa as traves e diminui a distância para o gol. A habilidade que ganha corpo quando a bola começa a conhecer os pés sem chuteiras. Futebol onde o verde não é farto. O punhado de jogadas que desrespeita o limite das quatro linhas. É preciso se alimentar de euforia e lambuzar a boca com o prato de alegria na miséria. Futebol que alimenta o talento frouxo daqueles que se acostumaram a formar dupla de ataque com o vazio. São todos cúmplices da tabelinha de primeira com o imaginário. É no vazio que o futebol se faz. É nele que a bola entra sem bater na porta. Bem no meio de duas canelas finas. O espaço milimetricamente calculado por uma máquina apelidada de intuição. Quando a bola passa tirando fino do nada, nasce o grito de olé. Um berro do desrespeito. O mínimo esforço é o máximo. É aí que o balé dos famintos se apresenta e desnuda sua face de beleza. A fome de bola é daqueles que chutam o mundo de canhota. Nasceram assim. Dando um bicudo na vida e um banho de cuia na objetividade. Pronto. A vida começa a fazer sentido. É um soco no andar correto e um drible da vaca na formalidade. A displicência fundamental. Não me venha com cartão vermelho para embaixadinhas debochadas no meio do campo. Exemplo de homem cordial e solícito é aquele que desdenha do adversário com dribles desrespeitosos em estádio com casa cheia. Para mim este é o verdadeiro gentleman. Um lance em branco e preto. O futebol é contradição. É um lançamento em profundidade para a magreza dos gestos. Força necessária apenas para a bola ultrapassar a risca. Não é jogo para os cretinos fundamentais, a quem se referia Nélson Rodrigues. Nem tão pouco para os idiotas da objetividade. O jogo dos pés se forma no palavrão inocente das crianças desnutridas. Cria-se nos becos onde as bolas se escondem. Na gíria do torcedor mais fanático. Alimenta-se na rede furada e na esperança televisiva. Aqueles onze atrás da bola correm para aliviar o desemprego e a amargura da platéia que abre a boca para bebericar gotas redondas de ilusão. Quem consegue compreender a complexidade de uma pelada pode se considerar um homem de bem. Quem consegue sofrer com a angústia do goleiro, tem um lugar no céu. No par ou ímpar, o time de craques se forma. Os nomes dos ídolos são personificados em gente comum. Futebol é assim. Paixão primária e sem muita explicação. Futebol é macumba das boas. Saravá. *O texto do jornalista tricolor João Valadares faz parte da mostra sobre futebol, que o Canal 03 vai participar em três cidades do Nordestes, incluindo Recife. A data e o nome da mostra ainda não foram definidos, mas o Blog do Santinha publica em primeira mão, para saciar nossa fome de beleza.

22 Comments:

Anonymous Anônimo said...

Putz! Parabéns, Valadares ! O texto flui como uma tabelinha, uma linha de passe cheia de habilidade, a poesia de um gol. Inácio e Samarone, esse blog tá merecendo parir um livro faz tempo !

5/10/2006 12:45:00 AM  
Anonymous Anônimo said...

Que texto do caralho. Que blog do caralho. Valadares, golaço. Sou do Rio Grande do Sul e moro em São Paulo. Fiquei sabendo do site por causa da promoçao da coca. Como entro em contato com valadares? Tenho um site sobre futebol e queria alguns textos sobre o Recife.
Espero informações.
Jasen Alcoforado

5/10/2006 09:32:00 AM  
Anonymous Anônimo said...

Um dos melhores textos já publicados no blog. Excelente. Lindo, lindo. A foto também é bela? que fez a foto?
Tricolora do morro

5/10/2006 09:36:00 AM  
Anonymous Anônimo said...

Orgulhoso de ser tricolor!!!
Walter D`Angelo

5/10/2006 09:51:00 AM  
Anonymous Anônimo said...

Esse Valadares é um fela da puta mesmo. Só podia ser tricolor. Gostei muito. Vou até mandar para os meus amigos do Santa. Só essa torcida tem esse sentimento.

5/10/2006 10:19:00 AM  
Blogger Inácio Franca/Samarone Lima said...

João Valadares pode ser localizado no jvaladares@jc.com.br

Quanto ao autor da foto, vamos descobrir e dar o devido crédito

5/10/2006 10:42:00 AM  
Anonymous Anônimo said...

Muito bom! Agora... quem ousará escrever textos para o blog, depois dessa pintura?

5/10/2006 11:36:00 AM  
Blogger Inácio Franca/Samarone Lima said...

Tricolozada e amigos do Blog,

lamentamos informar que Jurandir Arruda (seu Jura), pai do sanfoneiro Chiló faleceu na manhã de hoje (10 de maio) no Hospital Santa Joana. O corpo está sendo velado no cemitério de Santo Amaro, onde também será o sepultamento às 17h.

Jurandir Arruda era tricolor até no sobrenome.

5/10/2006 11:45:00 AM  
Anonymous Anônimo said...

Queria ver a foto maior. Tá muito pequena. Onde será essa exposição? Deu vontade de ir. É nesse mês?

5/10/2006 11:46:00 AM  
Anonymous Anônimo said...

Amigos, a foto que chegou está deste tamanho. João, vê se consegue uma foto maior, para a alegria da galera.
Inté mais.
samarone

5/10/2006 12:12:00 PM  
Anonymous Anônimo said...

Tricolores,

Não podemos deixar de apoiar Chiló e sua família num momento destes.
Força Chiló!

5/10/2006 02:30:00 PM  
Anonymous Anônimo said...

sr. jura foi um grande homem e um grande torcedor. eu tive o prazer de conhece - lo, de ir ao arruda assistir jogos do nosso santinha ao seu lado, tive o prazer de ouvir atentamente seus inteligentes comentários. saudades!
saudades!

5/10/2006 03:06:00 PM  
Anonymous Anônimo said...

Gostei do blog. É o primeiro do blogstars. Olhei e resolvi conferir aqui. Muito bom texto. Gostaria de mais e mais.Excelente foto. Pena que ficou pequena mesmo.
Adelson Júnior - Colorado até a morte!

5/10/2006 04:07:00 PM  
Anonymous Anônimo said...

Texto de altíssimo nível. Parabéns.

5/10/2006 05:57:00 PM  
Anonymous Anônimo said...

Um novo sergipano chega ao Arruda. Quem sabe não será um novo Joãozinho, Henágio, Nunes, Mirobaldo?

5/10/2006 05:59:00 PM  
Anonymous Anônimo said...

Adelson Jr,

aprenda uma nova versão do hino do Grêmio para vocês cantarem aí nos pampas: "Chupa a cabeça da pica/e tudo o que santa quiser/pois todo gaúcho viado/dá o cu onde o grêmio estiver".

É só trocar a palavra Santa pela palavra Inter

5/10/2006 08:20:00 PM  
Anonymous Anônimo said...

Belo texto. Só um tricolor consegue perceber essas coisas.

5/10/2006 10:48:00 PM  
Anonymous Anônimo said...

Chiló, mesmo à distância, creio que todos os visitantes do blog acompanharam o momento de dificuldade que você passou, em razão do problema de saúde e da cirurgia de seu pai. Tenho certeza de que todos torceram muito. Agora, nesta hora de dor, deixo aqui um abraço de solidariedade, para você e sua família.

5/11/2006 12:38:00 AM  
Anonymous Anônimo said...

Pessoal, esse Valadares tava dando uma de mascarado, escondendo o jogo. Nunca tinha dado uma contribuição para o blog, os comentários que faz é sempre na base do monossílabo, coisa e tal. Até que o treinador, ops, o professor dele, Samarone, cobrou publicamente mais empenho e dedicação, e ele resolveu mostrar serviço. Vamos ver se essa atitude inspira os jogadores do Santa a partir de domingo, pra ver se fazem com a bola umas coisas boas como ele fez com as palavras nesse texto. Só falta deixar de ser um cliente pé no saco, pra ver se o professor abre de novo um boteco !

5/11/2006 01:08:00 AM  
Anonymous Anônimo said...

Esse Valadares é o melhor jornalista da sua safra. Competente repórter de Cidades/JC, brilhante escrevinhador.
Saudações Tricolores.

5/11/2006 06:53:00 PM  
Anonymous Anônimo said...

Isso é poesia, diagramada em formato de prosa, por sacanagem mesmo, embaixadinha no meio de campo, e ganhando de 6x0. Cê Tinha que tomar porrada do volante, sim, que ele não tem sangue de barata. Eu tava ali encostado no muro do fosso do Arruda, e vi o goleiro chorando quando você soltou essa folha seca em direção ao gol...

5/12/2006 06:24:00 PM  
Anonymous Anônimo said...

Sou grato ao carinho de Sama e Inácio e aos demais amigos da Sanfona e do Santa pela solidariedade com a gente. Só um detalhe: meu pai não era Arruda. Ela era muito mais tricolor que isso: era José Silva.

Abraços de gratidão

Chiló e família.

5/20/2006 02:03:00 PM  

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