Um só pensamento
por Inácio França
A partir de agora, compromissos profissionais, casos de amor, questões de saúde, conflitos políticos ou contas a pagar, estão em segundo plano. Todas essas coisas que são o centro das atenções, que afligem ou empolgam os sujeitos de bem, ocupam agora um lugar desconfortável nas mentes e corações da torcida tricolor.
Sábado à tarde, compreendemos que não teremos vida fácil nas próximas semanas. Entendemos que nossos jogadores terão de suar sangue em campo. O sofrimento, nosso fiel companheiro nos últimos anos, voltou e sentou-se ao lado no lugar vazio do sofá da sala ou na mesa do bar.
Há poucos minutos, escutei a história de seu José Felipe, que de tão magro e ágil, é conhecido em Goiana, sua cidade, como Passo Mago. Percebi, então, a importância do momento que passamos a viver no instante que o juiz (ótimo, por sinal) soprou seu apito no sábado 22. E compreendi a real dimensão da angústia que se tornou nossa bagagem obrigatória.
Vamos ao Passo Mago, senhor de 74 anos, aposentado que passou a vida trabalhando no setor administrativo da fábrica da Açonorte, junto do rio Itapessoca, perto do mar de Goiana. A fábrica veio para o Curado, mas ele se recusou a acompanhá-la, abrindo mão da possibilidade de ascensão profissional para continuar lá, tomando conta da propriedade fechada. "Ele não queria sair de Goiana", contou sua filha, colega de trabalho e médica respeitada na capital.
Esse homem que se recusa a deixar seu lugar e seu passado, também rejeita o tempo livre dos aposentados. Passa os dias na banca do amigo Adielson vendendo jornais sem remuneração alguma. Faz isso pelo prazer de trabalhar, ler as notícias dos
cadernos de esportes antes de todos e para poder conversar com os fregueses.
Pois bem. Faz uma semana que esse homem está preso numa cama, cercado de aparelhos modernos e ruídos irritantes, na UTI do hospital Português. Sofreu um derrame. Um derrame que não afetou seus movimentos nem sua fala, mas o deixou inconciente e depois o levou ao coma.
Ontem, domingo, Passo Mago acordou. Ao recobrar a consciência, pediu a presença da filha, minha amiga (seu maior orgulho é ter tido sete filhas e um filho, todos tricolores), e fez só uma pergunta: "quanto foi o jogo do Santa?". Ouviu a resposta e completou: "Que lavagem…"
Seu José Felipe está se recuperando e, provavelmente, será submetida a uma rigorosa investigação científica. Os médicos querem saber como um homem de idade avançada passa cinco dias em coma e não perde a noção da tabela do campeonato.
4 Comments:
comigo foi diferente: desliguei a televisão quando neto foi expulso para não entrar em coma.
Seu Felipe viverá e verá o santinha na primeirona..A " lavagem" de roupas dentro da equipe, que entrou de salto alto(diferente da seriedade que tem sido a marca do time em sua trajetória vitoriosa), vai neutralizar a "lavagem" que a Portuguesa nos impôs...
Tricosampa e CÁ...
O santinha " marca" no âmago dos neurônios....Torcedor tricolor não deleta a paixão nem em coma... tá no sangue...e nas sinapses...
Não nego que depois de sábado ando bem mais angustiado do que o normal!
Sábado (29) está sendo o dia mais esperado das últimas semanas.
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